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Sermões do Padre Antônio Vieira Sermão VI · Capítulo 1

Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda (1640)

Sumário

Com estas palavras piedosamente resolutas, mais protestando que orando, dá fim o Propheta Rei ao psalmo quarenta e tres — psalmo que desde o principio até o fim não parece senão cortado para os tempos e occasião presente. O doutor maximo S. Jeronymo, e depois delle os outros expositores, dizem que se intende á letra de qualquer reino, ou provincia catholica, destruida e assolada por inimigos da fé. Mas entre todos os reinos do mundo a nenhum quadra melhor que ao nosso reino de Portugal; e entre todas as provincias de Portugal a nenhuma vem mais ao justo que á miseravel provincia do Brazil. Vamos lendo todo o psalmo, e em todas as clausulas delle veremos retratadas os da nossa fortuna; o que fomos, e o que somos.

Deus auribus nostris audivimus, Patres nostri annuntiaverunt: nobis opus, quod operatus et in diebus eorum, et in diebus antiquis. (Psal. XLIII — 2) Ouvimos (começa o Propheta) a nossos paes, lemos nas nossas historias, ainda os mais velhos viram, em parte, com seus olhos, as obras maravilhosas, as proezas, as victorias, as conquistas, que por meio dos portuguezes obrou em tempos passados vossa omnipotencia, Senhor: Manus tua gentes disperdidit, et plantasti eos: afflixiste populos, et expulisti eos. (Ibid. — 3) Vossa mão foi a que venceu e sujeitou tantas nações barbaras, belicosas e indomitas, e as despojou do dominio de suas proprias terras, para nellas os plantar, como plantou com tão bem fundadas raizes; e para nellas os dilatar, como dilatou, e estendeu em todas as partes do mundo, na Africa, na Asia, na America. Nec enim in gladio suo possederunt terram, et brachium eorum non salvavit eos, sed dextera tua, et brachium tuum, et illuminatio vultus tui, quoniam complacuisti in eis. (Ibid. — 4) Porque não foi a força do seu braço, nem a da sua espada a que lhes sujeitou as terras que possuiram, e as gentes e reis que avassallaram, senão a virtude de vossa dextra omnipotente, e a luz e o premio supremo de vosso beneplacito, com que nelles vos agradastes, e delles vos servistes. Até aqui a relação ou memoria das felicidades passadas, com que passa o Propheta aos tempos e desgraças presentes.

Nunc autem repulisti et confudisti nos: et non egredieris Deus in virtutibus nostris. (Ibid. — 10) Porém agora, Senhor, vemos tudo isto tão trocado, que já parece que nos deixastes de todo, e nos lançastes de vós, porque já não ides diante das nossas bandeiras, nem capitaneaes como d’antes os nossos exercitos: Avertisti non retrorsum post inimicos nostros, et qui oderunt nos, diripiebant sibi. (Ibid. — 11) Os que tão costumados eramos a vencer e triumphar, não por fracos, mas por castigados, fazeis que voltemos as costas a nossos inimigos (que como são açoute de vossa justiça, justo é que lhes demos as costas), e perdidos os que antigamente foram despojos do nosso valor, são agora roubo da sua cobiça: Dedisti nos tanquam oves escarum: et in gentibus dispersisti nos (Ibid. — 12). Os velhos, as mulheres, os meninos não teem forças, nem armas com que se defender, morrem como ovelhas innocentes ás mãos da crueldade heretica, e os que podem escapar á morte, desterrando-se a terras estranhas, perdem a casa e a patria: Posuisti nos opprobrium vicinis nostris, subsanationem, et derisum his, qui sunt in circuitu nostro (Ibid. — 14). Não fôra tanto para sentir, se, perdidas fazendas e vidas, se salvára ao menos a honra; mas tambem esta a passos contados se vae perdendo; e aquelle nome portuguez, tão celebrado nos annaes da fama, já o herege insolente com as victorias o affronta, e o gentio de que estamos cercados, e que tanto o venerava e temia, já o despreza.

Com tanta propriedade como isto descreve David neste psalmo nossas desgraças, contrapondo o que somos hoje ao que fomos em quanto Deus queria, para que na experiencia presente cresça a dôr por opposição com a memoria do passado. Occorre aqui ao pensamento o que não é licito sair á lingua; e não falta quem discorra tacitamente, que a causa desta differença tão notavel foi a mudança da monarchia. Não havia de ser assim (dizem) se vivêra um D. Manuel, um D. João o terceiro, ou a fatalidade de um Sebastião não sepultára com elle os reis portuguezes. Mas o mesmo Propheta no mesmo psalmo nos dá o desengano desta falsa maginação: Tu es ipse rex meus, et Deus meus: qui mandas salutes Jacob (Ibid. (Ibid. — 5). O reino de Portugal, como o mesmo Deus nos declarou na sua fundação, é reino seu e não nosso: Volo enim in tes et in semine tuo imperium mihi stabilire; e como Deus é o rei: Tu es ipse rex meus, et Deus meus; e este rei é o que manda, e o que governa: Qui mandas salutes Jacob, elle que não se muda, é o que causa estas differenças, e não os reis que se mudaram. Á vista, pois, desta verdade certa, e sem engano, esteve um pouco suspenso o nosso Propheta na consideração de tantas calamidades, até que para remedio dellas o mesmo Deus, que o alumiava, lhe inspirou um conselho altissimo, nas palavras que tomei por thema.

Exurge, quare obdormis, Domine? Exurge, et ne repellas in finem. Quare faciem tuam avertis, oblivisceris inopiæ nostræ, et tribulationis nostræ? Exurge, Domixe, adjuva nos, et redime nos propter nomen tuum. Não préga David ao povo, não o exhorta ou reprehende, não faz contra elle invictivas, posto que bem merecidas; mas todo arrebatado de um novo e extraordinario espirito, se volta não só a Deus, mas piedosamente atrevido contra elle. Assim como Martha disse a Christo: Domine non est tibi curæ? (S. Luc. X — 40) assim estranha David reverentemente a Deus, e quasi o accusa de descuidado. Queixa-se das desattenções de sua misericordia e providencia, que isso é considerar a Deus dormindo: Exurge, quare obdormis Domine? Repete-lhe que accorde, e que não deixe chegar os damnos ao fim, permissão indigna de sua piedade: Exurge, et ne repellas in finem. Pede-lhe a razão por que aparta de nós os olhos e nos volta o rosto: Quare faciem tuam avertis; e por que se esquece da nossa miseria, e não faz caso de nossos trabalhos: Oblivisceris inopiæ nostræ et tribulationis nostræ? E não só pede de qualquer modo esta razão do que Deus faz e permitte, senão que insta a que lh’a dê, uma e outra vez: Quare obdormis? Quare oblivisceris? Finalmente, depois destas perguntas, a que suppõe que não tem Deus resposta, e destes argumentos com que presume o tem convencido, protesta diante do tribunal de sua justiça e piedade, que tem obrigação de nos acudir, de nos ajudar, e de nos libertar logo: Exurge, Domine, adjuva nos, et redime nos. E para mais obrigar ao mesmo Senhor, não protesta por nosso bem e remedio, senão por parte da sua honra e gloria: Propter nomen tuum.

Esta é (Todo Poderoso e Todo Misericordioso Deus), esta é a traça de que usou para render vossa piedade, quem tanto se conformava com vosso coração. E desta usarei eu tambem hoje, pois o estado em que nos vemos, mais é o mesmo que similhante. Não hei de prégar hoje ao povo, não hei de fallar com os homens; mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes: a vosso peito divino se ha de dirigir todo o sermão. É este o ultimo de quinze dias continuos, em que todas as egrejas desta Metropole, a esse mesmo throno de vossa patente Magestade teem representado suas deprecações; e pois o dia é o ultimo, justo será que nelle se acuda tambem ao ultimo e unico remedio. Todos estes dias se cançaram debalde os oradores evangelicos em prégar penitencia aos homens; e pois elles se não converteram, quero eu, Senhor, converter-vos a vós. Tão presumido venho de vossa misericordia, Deus meu, que ainda que nós somos os peccadores, vós haveis de ser o arrependido.

O que venho a pedir ou protestar, Senhor, é que nos ajudeis e nos liberteis Adjuva nos, et redime nos. Mui conformes são estas petições ambas ao logar e ao tempo. Em tempo que tão opprimidos e tão captivos estamos, que devemos pedir com maior necessidade senão que nos liberteis: Redime nos? E na casa da Senhora d’Ajuda, que devemos esperar com maior confiança, senão que nos ajudeis: Adjuva nos? Não hei de pedir pedindo, senão protestando e argumentando, pois esta é a licença e liberdade que tem quem não pede favor senão justiça. Se a causa fôra só nossa, e eu viera a rogar só por nosso remedio, pedira favor e misericordia. Mas como a causa, Senhor, é mais vossa que nossa, e como venho a requerer por parte de vossa honra e gloria, e pelo credito de vosso nome: Propter nomen tuum, razão é que peça só razão, justo é que peça só justiça. Sobre este presupposto vos hei de arguir, vos hei de argumentar; e confio tanto da vossa razão e da vossa benignidade, que tambem vos hei de convencer. Se chegar a me queixar de vós, e a accusar as dilações de vossa justiça, ou as desattenções de vossa misericordia: Quare obdormis: quare oblivisceris, não será esta vez a primeira em que soffrestes similhantes excessos a quem advoga por vossa causa. As custas de toda a demanda tambem vós, Senhor, as haveis de pagar, porque me ha de dar a vossa mesma graça as razões com que vos hei de arguir, a efficacia com que vos hei de apertar, e todas as armas com que vos hei de render. E se para isto não bastam os merecimentos da causa, supprirão os da Virgem Santissima, em cuja ajuda principalmente confio: Ave Maria.

Exurge, quare obdormis, Domine? Querer argumentar com Deus, e convencel-o com razões, não só difficultoso assumpto parece, mas empreza declaradamente impossivel, sobre arrojada temeridade. Ó Homo, tu quis es, qui respondeas Deus? Nunquid dici figmentum ei, qui se finxit: Quid me fecisti sic? (Rom. IX — 20) Homem atrevido (diz S. Paulo), homem temerario, quem és tu, para que te ponhas a altercar com Deus? Por ventura o barro que está na roda e entre as mãos do official, põe-se ás razões com elle, e diz-lhe porque me fazes assim? Pois se tu és barro, homem mortal, se te formaram as mãos de Deus da materia vil da terra, como dizes ao mesmo Deus: Quare, quare: como te atreves a argumentar com a sabedoria divina, como pedes razão á sua providencia do que te faz, ou deixa de fazer? Quare obdormis? Quare faciem tuam avertis? Venera suas permissões, reverencêa e adora seus occultos juisos, encolhe os hombros com humildade a seus decretos soberanos, e farás o que te ensina a fé, e o que deves á creatura. Assim o fazemos, assim o confessamos, e assim o protestamos diante de vossa Magestade infinita, immenso Deus, imcomprehensivel bondade: Justus es, Domine, et rectum judicium tuum. (Psal. CXVIII — 137) Por mais que nós não saibamos intender vossas obras, por mais que não possamos alcançar vossos conselhos, sempre sois justo, sempre sois santo, sempre sois infinita bondade, e, ainda nos maiores rigores de vossa justiça, nunca chegaes com a severidade do castigo aonde nossas culpas merecem.

Se as razões e argumentos da nossa causa as houveramos de fundar em merecimentos proprios, temeridade fôra grande, antes impiedade manifesta, querer-vos arguir. Mas nós, Senhor, como protestava o nosso propheta Daniel: Neque enim in justificationibus nostris prosternimus preces ante faciem tuam, sed in miserationibus tuis multis. (Dan. IX — 18) Os requerimentos e razões delles, que humildemente presentamos ante vosso divino conspecto, as appellações ou embargos, que intrepomos á execução e continuação dos castigos que padecemos, de nenhum modo os fundamos na presumpção de nossa justiça, mas todos na multidão de vossas misericordias: In miserationibus tuis multis. Argumentamos, sim, mas de vós para vós: appellamos, mas de Deus para Deus — de Deus justo, para Deus misericordioso. E como do peito, Senhor, vos hão de sair todas as settas, mal poderão offender vossa bondade. Mas porque a dor quando é grande sempre arrasta o affecto, e o acerto das palavras é descredito da mesma dor, para que o justo sentimento dos males presentes, não passe os limites sagrados de quem falla diante de Deus e com Deus, em tudo o que me atrever a dizer seguirei as pisadas solidas dos que em similhantes occasiões, guiados por vosso mesmo espirito, oraram e exoraram vossa piedade.

Quando o povo de Israel no deserto commetteu aquelle gravissimo peccado de idolatria, adorando o oiro das suas joias na imagem bruta de um bezerro, revelou Deus o caso a Moysés, que com elle estava, e acrescentou irado e resoluto, que daquella vez havia de acabar para sempre com uma gente tão ingrata, e que a todos havia de assolar e consumir, sem que ficasse rasto de tal geração: Dimitte me, ut irascatur furor meus contra eos, et deleam eos. (Exod. XXXII — 10 e 11) Não lhe soffreu porém o coração ao bom Moysés ouvir fallar em destruição e assolação do seu povo: põe-se em campo, oppõe-se á ira divina, e começa a arrasoar assim: Cur Domine irascitur furor tuus contra populum tuum? E bem, Senhor, porque razão se indigna tanto a vossa ira contra o vosso povo? Porque razão Moysés? E ainda vós quereis mais justificada razão a Deus? Acaba de vos dizer que está o povo idolatrando; que está adorando um animal bruto; que está negando a divindade ao mesmo Deus, e dando-a a uma estatua muda, que acabaram de fazer suas mãos, e attribuindo-lhe a ella a liberdade e triumpho com que os livrou do captiveiro do Egypto; e sobretudo isto ainda perguntaes a Deus, porque razão se agasta: Cur irascitur furor tuus? Sim. E com muito prudente zelo; porque ainda que da parte do povo havia muito grandes razões de ser castigado, da parte de Deus era maior a razão que havia de o não castigar: Ne quæso (dá a razão Moysés) ne quæso dicant Ægiptii, Callidè eduxit eos, ut interficeret in montibus, et delèret è terra. (Ibid. — 12) Olhae, Senhor, que porão macula os egypcios em vosso ser, e quando menos em vossa verdade e bondade. Dirão, que cautelosamente, e à falsa fé, nos trouxestes a este deserto, para aqui nos tirardes a vida a todos, e nos sepultardes. E com esta opinião divulgada e assentada entre elles, qual será o abatimento de vosso santo nome, que tão respeitado e exaltado deixastes no mesmo Egypto, com tantas e tão prodigiosas maravilhas do vosso poder ? Convém logo para conservar o credito, dissimular o castigo, e não dar com elle occasião áquelles gentios e aos outros, em cujas terras estamos, ao que dirão: Ne quæso dicant. Desta maneira arrasoou Moysés em favor do povo; e ficou tão convencido Deus da força deste argumento, que no mesmo ponto revogou a sentença, e, conforme o texto hebreu, não só se arrependeu da execução, senão ainda do pensamento: Et pœnituit Dominum mali, quod cogitaverat facere populo suo. (Ibid. — 14) E arrependeu-se o Senhor do pensamento e da imaginação que tivera de castigar o seu povo.

Muita razão tenho eu logo, Deus meu, de esperar que haveis de sair deste sermão arrependido; pois sois o mesmo que ereis, e não menos amigo agora, que nos tempos passados, de vosso nome: Propter nomen tuum. Moysés disse-vos: Ne quæso dicant; Olhae, Senhor, que dirão: E eu digo e devo dizer: Olhae, Senhor, que já dizem. Já dizem os hereges insolentes com os successos prosperos, que vós lhe daes ou permittis, já dizem que porque a sua que elles chamam religião é a verdadeira, por isso Deus os ajuda e vencem; e porque a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece e somos vencidos. Assim o dizem, assim o prégam, e ainda mal, porque não faltará quem os creia. Pois é possivel, Senhor, que hão de ser vossas permissões argumentos contra a vossa fé? É possivel, que se hão de occasionar de nossos castigos blasfemias contra vosso nome? Que diga o herege (o que treme de o pronunciar a lingua), que diga o hereje, que Deus está hollandez ? Oh não permittaes tal, Deus meu, não permittaes tal, por quem sois, Não o digo por nós, que pouco ía em que nos castigasseis: não o digo pelo Brazil, que pouco ía em que o destruisseis; por vós o digo, e pela honra de vosso Santissimo Nome, que tão imprudentemente se vê blasfemado: Propter nomen tuum. Já que o perfido calvinista dos successos que só lhe merecem nossos peccados faz argumento da religião, e se jacta insolente e blasfemo de ser a sua a verdadeira, veja elle na roda dessa mesma fortuna, que o desvanece, de que parte está a verdade. Os ventos e tempestades, que descompoem e derrotam as nossas armadas, derrotem e desbaratem as suas: as doenças e pestes, que diminuem e enfraquecem os nossos exercitos, escalem as suas muralhas, e despovoem os seus presidios: os conselhos que, quando vós quereis castigar, se corropem, em nós sejam allumiados, e nelles enfatuados e confusos. Mude a victoria as insignias, desaffrontem-se as cruzes catholicas, triumphem as vossas chagas nas nossas bandeiras, e conheça humilhada e desenganada a perfidia, que só a fé romana, que professamos, é fé, e só ella a verdadeira e a vossa.

Mas ainda ha mais quem diga: Ne quæso dicant Ægyptii: Olhae, Senhor, que vivemos entre gentios, uns que o são, outros que o foram hontem: e estes que dirão? Que dirá o tapuya barbaro sem conhecimento de Deus? Que dirá o indio inconstante, a quem falta a pia affeição da nossa fé? Que dirá o ethiope boçal, que apenas foi molhado com a agua do baptismo sem mais doutrina? Não ha duvida, que todos estes, como não teem capacidade para sondar o profundo de vossos juisos, beberão o erro pelos olhos. Dirão pelos effeitos que vêem, que a nossa fé é falsa, e a dos hollandezes a verdadeira, e crerão que são mais christãos sendo como elles. A seita do hereje torpe e brutal, concorda mais com a brutalidade do barbaro: a largueza e soltura da vida, que foi a origem e o fomento da heresia, casa-se mais com os costumes depravados e corrupção do gentilismo: e que pagão haverá que se converta á fé que lhe prêgamos, ou que novo christão já convertido, que se não preverta, intendendo e persuadindo-se uns e outros, que no herege é premiada a sua lei, e no catholico se castiga a nossa? Pois se estes são os effeitos, posto que não pretendidos, de vosso rigor e castigo, justamente começado em nós, porque razão se atea e passa com tanto damno aos que não são cumplices nas nossas culpas: Cur irascitur furor tuus? Porque continúa sem estes reparos o que vós mesmo chamastes furor; e porque não acabaes já de embainhar a espada de vossa ira?

Se tão gravemente offendido do povo hebreu, por um que dirão dos egypcios lhe perdoastes; o que dizem os hereges, e o que dirão os gentios, não será bastante motivo, para que vossa rigorosa mão suspenda o castigo, e perdoe tambem os nossos peccados, pois, ainda que grandes, são menores? Os hebreus adoraram o idolo, faltaram á fé, deixaram o culto do verdadeiro Deus, chamaram Deus e Deuses a um bezerro; e nós, por mercê de vossa bondade infinita, tão longe estamos e estivemos sempre de menor defeito, ou escrupulo nesta parte, que muitos deixaram a patria, a casa, a fazenda, e ainda a mulher e os filhos, e passam em summa miseria desterrados, só por não viver nem communicar com homens que se separaram da vossa egreja. Pois, Senhor meu, e Deus meu, se por vosso amor e por vossa fé, ainda sem perigo de a perder ou arriscar, fazem taes finezas os portuguezes: Quare oblivisceris inopiæ nostræ, et tribulationis nostræ; porque vos esqueceis de tão religiosas miserias, de tão catholicas tribulações? Como é possivel que se ponha vossa Magestade irado contra estes fidelissimos servos, e favoreça a parte dos infieis, dos excommungados, dos impios?

Oh como nos podemos queixar neste passo, como se queixava lastimado Job, quando, despojado dos sabeos e caldeos, se viu como nós nos vemos, no extremo da oppressão e miseria: Nunquid bonum tibi videtur, si calumnieris me, et opprimas me opus manuus tuarum, et consilium impiorum adjuves?! (Job X — 3) Parece-vos bem, Senhor, parece-vos bem isto? Que a mim, que sou vosso servo, me opprimaes e afflijaes, e aos impios, aos inimigos vossos os favoreçaes e ajudeis? Parece-vos bem que sejam elles os prosperados e assistidos de vossa providencia, e nós os deixados de vossa mão; nós os esquecidos de vossa memoria; nós o exemplo de vossos rigores; nós o despojo de vossa ira? Tão pouco é desterrarmo-nos por vós, e deixar tudo? Tão pouco é padecer trabalhos, pobrezas, e os despresos que ellas trazem comsigo, por vosso amor? Já a fé não tem merecimento? Já a piedade não tem valor? Já a perseverança não vos agrada? Pois se ha tanta differença entre nós, ainda que máos, e aquelles perfidos; porque os ajudaes a elles e nos desfavoreceis a nós? Nunquid bonum tibi videtur: a vós, que sois a mesma bondade, parece-vos bem isto?

Considerae, Deus meu — e perdoae-me se fallo inconsideradamente — considerae a quem tiraes as terras do Brazil, e a quem as daes. Tiraes estas terras aos portuguezes, a quem no principio as déstes; e bastava dizer a quem as déstes, para perigar o credito de vosso nome, que não podem dar nome de liberal mercês com arrependimento. Para que nos disse S. Paulo, que vós, Senhor, quando daes, não vos arrependeis: Sine pænitentia enim sunt dona Dei? (Rom. XI — 29) Mas deixado isto á parte: tiraes estas terras áquelles mesmos portuguezes, a quem escolhestes entre todas as nações do mundo para conquistadores da vossa fé, e a quem déstes por armas, como insignia e divisa singular, vossas proprias chagas. E será bem, Supremo Senhor e Governador do universo, que ás sagradas quinas de Portugal, e ás armas e chagas de Christo, succedam as hereticas listas de Hollanda, rebeldes a seu rei e a Deus? Será bem que estas se vejam tremular ao vento victoriosas, e aquellas abatidas, arrastadas, e ignominiosamente rendidas? Et quid facies magno nomini tuo? (Josué VII — 9) E que fareis (como dizia Josué) ou que será feito de vosso glorioso nome em casos de tanta affronta?

Tiraes tambem o Brazil aos portuguezes, que assim estas terras vastissimas, como as remotissimas do Oriente, as conquistaram á custa de tantas vidas e tanto sangue, mais por dilatar vosso nome e vossa fé (que esse era o zelo daquelles christianissimos reis), que por amplificar e estender seu imperio. Assim fostes servido que entrassemos nestes novos mundos, tão honrada e tão gloriosamente, e assim permittis que saiamos agora (quem tal imaginaria de vossa bondade), com tanta affronta e ignominia? Oh como receio, que não falte quem diga o que diziam os egypcios: Callidè eduxit eos, ut interficeret, et deleret è terra: (Exod. XXXII — 12 ) Que a larga mão com que nos déstes tantos dominios e reinos não foram mercês de vossa liberalidade, senão cautela e dissimulação de vossa ira, para aqui, fóra e longe de nossa patria, nos matardes, nos destruirdes, nos acabardes de todo. Se esta havia de ser a paga e o fructo de nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o derramar tanto e tão illustre sangue nestas conquistas? Para que abrimos os mares nunca d’antes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climas não conhecidos? Para que contrastamos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas ha baixio no Oceano, que não esteja infamado com miserabilissimos naufragios de portuguezes? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas dos alarves, das feras, dos peixes, que as terras que assim ganhamos, as hajamos de perder assim ! Oh quanto melhor nos fôra nunca conseguir, nem intentar taes emprezas! Mais santo que nós era Josué, menos apurada tinha a paciencia, e comtudo em occasião similhante não fallou (fallando comvosco) por differente linguagem. Depois de os filhos de Israel passarem ás terras ultramarinas do Jordão, como nós a estas, avançou parte do exercito a dar assalto á cidade de Hay, a qual nos eccos do nome já parece que trazia o prognostico do infeliz successo que os israelitas nella tiveram; porque foram rotos, e desbaratados, posto que com menos mortos e feridos do que nós por cá costumamos. E que faria Josué á vista desta desgraça? Rasga as vestiduras imperiaes, lança-se por terra, começa a clamar ao céu: Heu Domine Deus, quid voluisti traducere populum istum Jordanem fluvium, ut traderes nos in manus Amorrhœi? (Josué VII — 7) Deus meu, e Senhor meu, que é isto? Para que nos mandastes passar o Jordão, e nos metestes de posse destas terras, se aqui nos havieis de entregar nas mãos dos Amorrheus e perder-nos? Utinam mansissemus trans Jordanem! (Ibid.) Oh nunca nós passaramos tal rio! Assim se queixava Josué a Deus, e assim nos podemos nós queixar, e com muito maior razão que elle. Se este havia de ser o fim de nossas navegações, se estas fortunas nos esperavam nas terras conquistadas: Utinam mansissemus trans Jordanem? provéra a vossa divina Magestade, que nunca sairamos de Portugal, nem fiaramos nossas vidas ás ondas e aos ventos, nem conheceramos, ou puzeramos os pés em terras estranhas. Ganhal-as para as não lograr, desgraça foi e não ventura: possuil-as para as perder, castigo foi de vossa ira, Senhor, e não mercê, nem favor de vossa liberalidade. Se determinaveis dar estas mesmas terras aos piratas de Hollanda, porque lh’as não destes em quanto eram agrestes e incultas senão agora? Tantos serviços vos tem feito esta gente pervertida e apostata, que nos mandastes primeiro cá por seus aposentadores, para lhes lavrarmos as terras, para lhes edificarmos as cidades, e depois de cultivadas e enriquecidas lh’as entregardes? Assim se hão de lograr os herejes, e inimigos da fé dos trabalhos portuguezes e dos suores catholicos? En queis consevimus agros? (Virgíl.) Eis-aqui para quem trabalhamos ha tantos annos! Mas pois vós, Senhor, o quereis e ordenaes assim, fazei o que fordes servido. Entregae aos hollandezes o Brazil, entregae-lhes as Indias, entregae-lhes as Hespanhas (que não são menos perigosas as consequencias do Brazil perdido), entregae-lhes quanto temos e possuimos (como já lhe, entregastes tanta parte); ponde em suas mãos o mundo; e a nós, aos portuguezes e hespanhoes, deixae-nos, repudiae-nos, desfazei-nos, acabae-nos. Mas só digo e lembro a vossa Magestade, Senhor, que estes mesmos que agora desfavoreceis e lançaes de vós, póde ser que os queiraes algum dia, e que os não tenhaes.

Não me atrevera a fallar assim, se não tirára as palavras da boca de Job, que, como tão lastimado, não é muito entre muitas vezes nesta tragedia. Queixava-se o exemplo da paciencia a Deus (que nos quer Deus soffridos, mas não insensiveis), queixava-se do tesão de suas penas, demandando e altercando, porque se lhe não havia de remittir e afrouxar um pouco o rigor dellas; e como a todas as replicas e instancias o Senhor se mostrasse inexoravel, quando já não teve mais que dizer, concluiu assim: Ecce nunc in pulvere dormiam, et si mane mo quæsieris, non subsistam. (Job. VII — 21 ) Já que não quereis, Senhor, desistir ou moderar o tormento, já que não quereis senão continuar o rigor e chegar com elle ao cabo, seja muito embora, matae-me, consumi-me, enterrae-me; Ecce nunc in pulvere dormiam; mas só vos digo e vos lembro uma coisa: que se me buscardes amanhã, que me não haveis de achar: Et si mane me quæsieris, non subsistam. Tereis aos sabeos, tereis aos caldeos, que sejam o roubo e o açoite de vossa casa; mas não achareis a um Job que a sirva, não achareis a um Job que a venere, não achareis a um Job, que ainda com suas chagas a não desauctorise. O mesmo digo eu, Senhor, que não é muito rompa nos mesmos affectos, quem se vê no mesmo estado. Abrasae, destrui, consumi-nos a todos; mas póde ser que algum dia queiraes hespanhoes e portuguezes, e que os não acheis. Hollanda vos dará os apostolicos conquistadores, que levem pelo mundo os estandartes da cruz: Hollanda vos dará os prégadores evangelicos, que semeem nas terras dos barbaros a doutrina catholica, e a reguem com o proprio sangue: Hollanda defenderá a verdade de vossos sacramentos, e a auctoridade da egreja romana: Hollanda edificará templos, Hollanda levantará altares, Hollanda consagrará sacerdotes e offerecerá o sacrificio de vosso santissimo corpo: Hollanda emfim vos servirá e venera tão religiosamente como em Amsterdam, Meldeburg e Flisinga, e em todas as outras colonias daquelle frio e alagado inferno, se está fazendo todos os dias.

Bem vejo que me podeis dizer, Senhor, que a propagação de vossa fé, e as obras de vossa gloria não dependem de nós, nem de ninguem, e que sois poderoso, quando faltem homens, para fazer das pedras filhos de Abraham. Mas tambem a vossa sabedoria, e a experiencia de todos os seculos nos tem ensinado, que depois de Adão não creastes homens de novo, que vos servis dos que tendes neste mundo, e que nunca admittis os menos bons, senão em falta dos melhores. Assim o fizestes na parabola do banquete. Mandastes chamar os convidados, que tinheis escolhido, e porque elles se escusaram, e não quizeram vir, então admittistes os cegos e mancos, e os introduzistes em seu logar: Cæcos, et claudos introduc huc. (S. Luc. XIV — 21 ) E se esta é, Deus meu, a regular disposição de vossa providencia divina, como a vemos agora tão trocada em nós, e tão differente comnosco? Quaes foram estes convidados e quaes são estes cegos e mancos? Os convidados fomos nós, a quem primeiro chamastes para estas terras, e nellas nos puzestes a meza, tão franca e abundante, como de vossa grandeza se podia esperar. Os cegos e mancos são os lutheranos e calvinistas, cegos sem fé, e mancos sem obras; na reprovação das quaes consiste o principal erro da sua heresia. Pois se nós, que fomos os convidados, não nos escusámos, nem duvidámos de vir, antes rompemos por muitos inconvenientes, em que poderamos duvidar; se viemos e nos assentámos á meza; como nos excluis agora e lançaes fóra della e introduzis violentamente os cegos e mancos, e daes os nossos logares ao hereje? Quando em tudo o mais foram elles tão bons como nós, ou nós tão maus como elles, porque nos não ha de valer pelo menos o privilegio e prerogativa da fé? Em tudo parece, Senhor, que trocaes os estylos de vossa providencia e mudaes as leis de vossa justiça comnosco.

Aquellas dez virgens do vosso evangelho todas se renderam ao somno, todas adormeceram, todas foram iguaes no mesmo descuido: Dormitaverunt omnes es dormierunt. (S. Math. XXV — 5) E comtudo a cinco dellas passou-lhe o Esposo por este defeito, e só porque conservaram as alampadas acezas, mereceram entrar ás vodas, de que as outras foram excluidas. Se assim é, Senhor meu, se assim o julgastes então (que vós sois aquelle Esposo divino) porque não nos val a nós tambem conservar as alampadas da fé acezas, que no hereje estão tão apagadas e tão mortas? É possivel, que haveis de abrir as portas a quem traz as alampadas apagadas, e que as haveis de fechar a quem as tem acezas? Reparae, Senhor, que não é auctoridade do vosso divino tribunal, que sáiam delle no mesmo caso duas sentenças tão encontradas. Se ás que deixaram apagar as alampadas se disse: Nescio vos: (Ibid. — 12) se para ellas se fecharam as portas: Clausu est janua: (Ibid. — 10) quem merece ouvir de vossa boca um Nescio vos tremendo, senão o hereje que vos não conhece? E a quem deveis dar com a porta nos olhos, senão ao hereje que os tem tão cegos? Mas eu vejo que nem esta cegueira, nem este desconhecimento, tão merecedores de vosso rigor, lhes retarda o progresso de suas fortunas, antes a passo largo se veem chegando a nós suas armas victoriosas, e cedo nos baterão ás portas desta vossa cidade — desta vossa cidade disse; mas não sei se o nome do Salvador, com que a honrastes, a salvará e deffenderá, como já outra vez não deffendeu; nem sei se estas nossas deprecações, posto que tão repetidas e continuadas, acharão accesso a vosso conspecto divino, pois ha tantos annos que está bradado ao ceu a nossa justa dôr, sem vossa clemencia dar ouvidos a nossos clamores.

Se acaso fôr assim (o que vós não permittaes), e está determinado em vosso secreto juiso que entrem os herejes na Bahia, o que só vos represento humildemente e muito devéras, é, que antes da execução da sentença repareis bem, Senhor, no que vos póde succeder depois, e que o consulteis com vosso coração, em quanto é tempo; porque melhor será arrepender agora, que quando o mal passado não tenha remedio. Bem estaes na intenção e allusão com que digo isto, e na razão, fundada em vós mesmo, que tenho para o dizer. Tambem antes do diluvio estaveis vós mui colerico e irado contra os homens, e por mais que Noé orava em todos aquelles cem annos, nunca houve remedio para que se aplacasse vossa ira. Romperam-se emfim as cataratas do céu, cresceu o mar até os cumes dos montes, alagou-se o mundo todo: já estará satisfeita vossa justiça: senão quando ao terceiro dia começaram a aboiar os corpos mortos, e a surgir e apparecer em multidão infinita aquellas figuras palidas, e então se representou sobre as ondas a mais triste e funesta tragedia, que nunca viram os anjos, que homens que a vissem, não os havia. Vistes vós tambem (como se o visseis de novo) aquelle lastimosissimo espectaculo, e posto que não chorastes, porque ainda não tinheis olhos capazes de lagrimas, enterneceram-se porém as entranhas de vossa divindade, com tão intrinseca dôr: Tactus dolore cordis intrinsecus (Genes. VI — 6) que do modo que em vós cabe arrependimento, vos arrependestes do que tinheis feito ao mundo, e foi tão inteira a vossa contricção, que não só tivestes pezar do passado, senão proposito firme de nunca mais o fazer: Nequaquam ultra maledicam terræ propter homines. (Ibid. VIII — 21) Este sois, Senhor, este sois: e pois este, não vos tomeis com vosso coração. Para que é fazer agora valentias contra elle, se o seu sentimento, e o vosso as ha de pagar depois? Já que as execuções de vossa justiça custam arrependimentos á vossa bondade, vêde o que fazeis antes que o façaes, não vos aconteça outra. E para que o vejaes com côres humanas, que já vos não são estranhas, dae-me licença, que eu vos represente primeiro ao vivo as lastimas e miserias deste futuro diluvio; e se esta representação vos não enternecer, e tiverdes entranhas para o vêr sem grande dôr, executae-o embora.

Finjamos pois (o que até fingido e imaginado faz horror, finjamos que vem a Bahia e o resto do Brazil a mãos dos hollandezes: que é o que ha de succeder em tal caso? Entrarão por esta cidade com furia de vencedores e de hereges: não perdoarão a estado, a sexo, nem a idade: com os fios dos mesmos alfanges medirão a todos: chorarão as mulheres, vendo que se não guarda decóro á sua modestia: chorarão os velhos, vendo que se não guarda respeito ás suas cãs: chorarão os nobres, vendo que se não guarda cortezia á sua qualidade: chorarão os religiosos e veneraveis sacerdotes, vendo que até as corôas sagradas os não defendem: chorarão finalmente todos, e entre todos mais lastimosamente os innocentes, porque nem a esses perdoará (como em outras occasiões não perdoou), a deshumanidade heretica. Sei eu, Senhor, que só por amor dos innocentes, dissestes vós algum hora, que não era bem castigar a Ninive. Mas não sei que tempos, nem que desgraça é esta nossa, que até a mesma innocencia vos não abranda. Pois tambem a vós, Senhor, vos ha de alcançar parte do castigo (que é o que mais sente a piedade christã), tambem a vós ha de chegar.

Entrarão os herejes nesta egreja e nas outras: arrebatarão essa custodia, em que agora estaes adorado dos anjos: tomarão os calices e vasos sagrados, e applical-os-hão a suas nefandas embriaguezes: derribarão dos altares os vultos e estatuas dos santos, deformal-as-hão a cutiladas, e metel-as-hão no fogo: e não perdoarão as mãos furiosas e sacrilegas, nem ás imagens tremendas de Christo crucificado, nem ás da Virgem Maria. Não me admiro tanto, Senhor, de que hajaes de consentir similhantes aggravos e affrontas nas vossas imagens, pois já as permittistes em vosso sacratissimo corpo; mas nas da Virgem Maria, nas de vossa Santissima Mãe, não sei como isto póde estar com a piedade e amor de Filho. No monte Calvario esteve esta Senhora sempre ao pé da cruz; e com serem aquelles algozes tão descortezes e crueis, nenhum se atreveu a lhe tocar nem a lhe perder o respeito. Assim foi, e assim havia de ser, porque assim o tinheis vós promettido pelo propheta: Flagellum non appropinquabit tabernaculo tuo. (Psal. XC — 10) Pois, Filho da Virgem Maria, se tanto cuidado tivestes então do respeito e decoro de vossa Mãe, como consentis agora, que se lhe façam tantos desacatos? Nem me digaes, Senhor, que lá era a pessoa, cá a imagem. Imagem somente da mesma Virgem, era a arca do testamento, e só porque Oza a quiz tocar, lhe tirastes a vida. Pois se então havia tanto rigor para quem offendia a imagem de Maria, porque o não ha tambem agora? Bastava então qualquer dos outros desacatos ás coisas sagradas, para uma severissima demonstração vossa ainda milagrosa. Se a Jeroboão, porque levantou a mão para um propheta, se lhe secou logo o braço milagrosamente; como aos hereges depois de se atreverem a affrontar vossos santos, lhes ficam ainda braços para outros delictos? Se a Balthasar por beber pelos vasos do templo, em que não se consagrava vosso sangue, o privastes da vida e do reino, porque vivem os hereges, que convertem vossos calices a usos prophanos? Já não ha tres dedos que escrevam sentença de morte contra sacrilegos?

Em fim, Senhor, despojados assim os templos, e derribados os altares, acabar-se-ha no Brazil a christandade catholica: acabar-se-ha o culto divino: nascerá herva nas egrejas, como nos campos: não haverá quem entre nellas. Passará um dia de Natal, e não haverá memoria de vosso nascimento: passará a quaresma, e a semana santa, e não se celebrarão os mysterios de vossa Paixão. Choraram as pedras das ruas, como diz Jeremias que choravam as de Jerusalem destruida: Viæ Sion lugent, eò quòd non sint qui veniant ad solemnitatem: (Thren. I — 4) Ver-se-hão ermas e solitarias, e que as não pisa a devação dos fieis, como costumava em similhantes dias. Não haverá missas, nem altares, nem sacerdotes que as digam: morrerão os catholicos sem confissão, nem sacramentos: prégar-se-hão heresias nestes mesmos pulpitos; e em logar de São Jeronymo, e Santo Agostinho, ouvir-se-hão e allegar-se-hão nelles os infames nomes de Calvino e Luthero; beberão a falsa doutrina os innocentes que ficarem, reliquias dos portuguezes; e chegaremos a estado, que se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão: Menino, de que seita sois? Um responderá, eu sou calvinista; outro, eu sou lutherano. Pois isto se ha de soffrer, Deus meu? Quando quizestes entregar vossas ovelhas a São Pedro, examinastel-o tres vezes, se voz amava: Diligis me, diligis me, diligis me? (S. Joan. XXI — 15) E agora as entregaes desta maneira, não a pastores, senão aos lobos? Sois o mesmo, ou sois outro? Aos hereges o vosso rebanho? Aos hereges as almas? Como tenho dito, e nomeei almas, não vos quero dizer mais. Já sei, Senhor, que vos haveis de enternecer e arrepender, e que não haveis de ter coração para vêr taes lastimas, e taes estragos. E se assim é (que assim o estão promettendo vossas entranhas piedosissimas), se é que ha de haver dôr, se é que ha de haver arrependimento depois, cessem as iras, cessem as execuções agora, que não é justo vos contente antes o de que vos ha de pesar em algum tempo.

Muito honrastes, Senhor, ao homem na creação do mundo, formando-o com vossas proprias mãos, informando-o, e animando-o com vosso proprio alento, e imprimindo nelle o caracter de vossa imagem e similhança. Mas parece que logo desde aquelle mesmo dia vos não contentastes delle, porque de todas as outras coisas que creastes, diz a escriptura que vos pareceram bem: Vidit Deus quòd esset bonum; (Genes. I — 10) e só do homem o não diz. Na admiração desta mysteriosa reticencia andou desde então suspenso, e vacillando o juiso humano, não podendo penetrar qual fosse a causa, por que agradando-vos com tão publica demonstração todas as vossas obras, só do homem, que era a mais perfeita de todas, não mostrasseis agrado. Finalmente, passados mais de mil e setecentos annos, a mesma Escriptura que tinha calado aquelle mysterio, nos declarou que vós estaveis arrependido de ter creado o homem: Pœnituit eum quod hominem fecisset in terra: (Ibid. VI — 6) e que vós mesmo dissestes, que vos pezava: Pœnitet me fecisse eos: (Ibid. — 7) e então ficou patente, e manifesto a todos o segredo que tantos tempos tinheis occultado. E vós, Senhor, dizeis que vos peza, e que estaes arrependido de ter creado o homem; pois essa é a causa por que logo desde principio de sua creação vos não agradastes delle, nem quizestes que se dissesse, que vos parecera bem: julgando, como era razão, por coisa muito alheia de vossa sabedoria e providencia, que em nenhum tempo vos agradasse, nem parecesse bem aquillo de que depois vos havieis de arrepender, e ter pesar de ter feito: Pœnitet me fecisse. Sendo pois esta a condição verdadeiramente divina, e a altissima razão de estado de vossa providencia, não haver jamais agrado do que ha de haver arrependimento; e sendo tambem certo nas piedosissimas entranhas de vossa misericordia, que se permittirdes agora as lastimas, as miserias, os estragos, que tenho representado, é força que vos ha de pesar depois, e vos haveis de arrepender; arrependei-vos, misericordioso Deus, em quanto estamos em tempo, ponde em nós os olhos de vossa piedade, ide á mão á vossa irritada justiça, quebre vosso amor as settas de vossa ira, e não permittaes tantos damnos, e tão irreparaveis. Isto é o que vos pedem tantas vezes prostradas diante de vosso divino acatamento estas almas tão fielmente catholicas em nome seu, e de todas as deste estado. E não vos fazem esta humilde deprecação pelas perdas temporaes, de que cedem, e as podeis executar nelles por outras vias; mas pela perda espiritual eterna de tantas almas, pelas injurias de vossos templos e altares, pela exterminação do sacrosanto sacrificio de vosso corpo e sangue, e pela ausencia insoffrivel, pela ausencia e saudades desse Santissimo Sacramento, que não sabemos quanto tempo teremos presente.

Chegado a este ponto, de que não sei, nem se póde passar, parece-me que nos está dizendo vossa divina e humana bondade, Senhor, que o fizereis assim facilmente, e vos deixarieis persuadir e convencer destas nossas razões, senão que está clamando por outra parte vossa divina justiça: e como sois igualmente justo e misericordioso, que não podeis deixar de castigar, sendo os peccados do Brazil tantos e tão grandes. Confesso, Deus meu, que assim é, e todos confessamos que somos grandissimos peccadores. Mas tão longe estou de me aquietar com esta resposta, que antes esses mesmos peccados muitos e grandes, são um novo e poderoso motivo dado por vós mesmo para mais convencer vossa bondade.

A maior força dos meus argumentos não consistiu em outro fundamento até agora, que no credito, na honra, e na gloria de vosso santissimo nome: Propter nomen tuum. E que motivo posso eu offerecer mais glorioso ao mesmo nome, que serem muitos e grandes os nossos peccados? Propter nomen tuum, Domine, propitiaberis peccato meo : multum est enim. (Psal. XXIV — 11) Por amor de vosso nome, Senhor, estou certo (dizia David) que me haveis de perdoar meus peccados, porque não são quaesquer peccados, senão muitos e grandes: Multum est enim. Oh motivo digno só do peito de Deus! Oh consequencia que só na summa bondade pode ser forçosa! De maneira que para lhe serem perdoados seus peccados allegou um peccador a Deus, que são muitos e grandes. Sim; e não por amor do peccador, nem por amor dos peccados, senão por amor da honra e gloria do mesmo Deus, a qual quanto mais, e maiores são os peccados que perdoa, tanto maior é, e mais engrandece e exalta seu santissimo nome: Propter nomen tuum, Domine, propitiaberis peccato meo: multum est enim. O mesmo David distingue na misericordia de Deus grandeza e multidão: a grandeza: Secundum magnam misericordiam tuam: (Ibid. L — 3) a multidão: Et secundum multitudinem miserationum tuarum. E como a grandeza da misericorda divina é immensa, e a multidão de suas misericordias infinita; e o immenso não se póde medir, nem o infinito contar; para que uma e outra, de algum modo, tenha proporcionada materia de gloria, importa á mesma grandeza da misericordia que os peccados sejam grandes, e á mesma multidão das misericordias, que sejam muitos: Multum est enim. Razão tenho eu logo, Senhor, de me não render á razão de serem muitos e grandes nossos peccados. E razão tenho tambem de instar em vos pedir a razão por que não desistis de os castigar: Quare obdormis? Quare faciem tuum advertis? Quare oblivisceris inopiæ nostræ, et tribulationis nostræ?

Esta mesma razão vos pediu Job quando disse: Cur non tollis peccatum meum, et quare non aufers iniquitatem meam? (Job. VII — 21) E posto que não faltou um grande interprete de vossas escripturas que o arguisse por vossa parte, em fim se deu por vencido, e confessou que tinha razão Job em vol-a pedir: Criminis in loco Deo impingis, quod ejus, qui deliquit, non miseretur? diz Cyrillo Alexandrino. Basta, Job, que criminaes e accusaes a Deus de que castiga vossos peccados! Nas mesmas palavras confessaes que commettestes peccados e maldades: e com as mesmas palavras pedis razão a Deus por que as castiga? Isto é dar a razão, e mais pedil-a. Os peccados e maldades, que não occultaes, são a razão do castigo: pois se daes a razão, por que a pedis? Por que ainda que Deus para castigar os peccados tem a razão de sua justiça, para os perdoar, e desistir do castigo, tem outra razão maior, que é a da sua gloria: Qui enim misereri consuevit, et non vulgarem in eo gloriam habet; ob quam causam mei non miseretur? Pede razão Job a Deus, e tem muita razão de a pedir, (responde por elle o mesmo santo, que o arguiu) porque se é condição de Deus usar de misericordia, e é grande e não vulgar a gloria que acquire em perdoar peccados, que razão tem, ou póde dar bastante de os não perdoar? O mesmo Job tinha já declarado a força deste seu argumento nas palavras antecedentes com energia para Deus muito forte: Peccavi, quid faciam tibi? (Ibid. — 20) Como se dissera: se eu fiz, Senhor, como homem em peccar, que razão tendes vós para não fazer como Deus em me perdoar? Ainda disse, e quiz dizer mais: Peccavi, quid faciam tibi? Pequei, que mais vos posso fazer: E que fizestes vós, Job, a Deus em peccar? Não lhe fiz pouco; porque lhe dei occasião a me perdoar, e perdoando-me, ganhar muita gloria. Eu dever-lhe-hei a elle, como a causa, a graça que me fizer; e elle dever-me-ha a mim, como a occasião, a gloria que alcançar.

E se é assim, Senhor, sem licença, nem encarecimento; se é assim misericordioso Deus, que em perdoar peccados se augmenta a vossa gloria, que é o fim de todas vossas acções; não digaes que nos não perdoaes, porque são muitos e grandes os nossos peccados, que antes porque são muitos e grandes, deveis dar essa grande gloria á grandeza e multidão de vossas misericordias. Perdoando-nos, e tendo piedade de nós, é que haveis de ostentar a soberania de vossa magestade, e não castigando-nos, em que mais se abate vosso poder, do que se acredita. Vêde-o neste ultimo castigo, em que, contra toda a esperança do mundo e de tempo, fizestes que se derrotasse a nossa armada, a maior que nunca passou a Equinocial. Pudestes, Senhor, derrotal-a; e que grande gloria foi de vossa omnipotencia, poder o que póde o vento? Contra folium, quod vento rapitur, ostendis potentiam. (Ibid. XIII — 25) Desplantar uma nação, como nos ides desplantando, e plantar outra, tambem é poder que vós commettestes a um homemzinho de Anathoth: Ecce constitui te super gentes, et super regna, ut evellas, et destruas, et disperdas, et dissipes, et œdifices, et plantes. (Jerem. I — 10) O em que se manifesta a magestade, a grandeza e a gloria de vossa infinita omnipotencia, é em perdoar e usar de misericordia: Qui omnipotentiam tuam, parcendo maxime, et miserando, manifestas. Em castigar, venceis-nos a nós, que somos creaturas fracas; mas em perdoar, venceis-vos a vós mesmo, que sois todo poderoso e infinito. Só esta victoria é digna de vós, porque só vossa justiça póde pelejar com armas iguaes contra vossa misericordia; e sendo infinito o vencido, infinita fica a gloria do vencedor. Perdoae, pois, benignissimo Senhor, por esta grande gloria vossa: Propter magnam gloriam tuam: perdoae por esta gloria immensa de vosso santissimo nome: Propter nomen tuum.

E se acaso ainda reclama vossa divina justiça, por certo, não já misericordioso, senão justissimo Deus, que tambem a mesma justiça se pudéra dar por satisfeita com os rigores e castigos de tantos annos. Não sois vós em quanto justo, aquelle justo Juiz, de quem canta o vosso propheta: Deus Judex justus, fortis, et patiens, nunquid irascitur per singulos dies? (Psal. VII — 12) Pois se a vossa ira, ainda como de justo Juiz, não é de todos os dias, nem de muitos; por que se não dará por satisfeita com rigores de annos e tantos annos? Sei eu, Legislador supremo, que nos casos de ira, posto que justificada, nos manda vossa santissima lei, que não passe de um dia, e que antes de se pôr o sol tenhamos perdoado: Sol non occidat super iracundiam vestram. (Ephes. IV — 26) Pois se da fraqueza humana, e tão sensitiva, espera tal moderação nos aggravos vossa mesma lei, e lhe manda que perdoe e se aplaque em termo tão breve e tão preciso; vós que sois Deus infinito, e tendes um coração tão dilatado como vossa mesma immensidade, e em materia de perdão vos propondes aos homens por exemplo; como é possivel que os rigores de vossa ira se não abrandem em tantos annos, e que se ponha e torne a nascer o sol tantas e tantas vezes, vendo sempre desembainhada e correndo sangue, a espada de vossa vingança? Sol de justiça, cuidei eu que vos chamavam as escripturas, (Malach. IV — 2) porque ainda quando mais fogoso e ardente, dentro do breve espaço de doze horas, passava o rigor de vossos raios; mas não o dirá assim este sol material que nos allumia e rodêa, pois ha tantos dias e tantos annos, que passando duas vezes sobre nós de um tropico a outro, sempre vos vê irado.

Já vos não allego, Senhor, com o que dirá a terra e os homens, mas com o que dirá o ceu e o mesmo sol. Quando Josué mandou parar o sol, as palavras da lingoa hebraica, em que lhe fallou, foram, não que parasse, senão que se callasse: Sol tace contra Gabaon. (Josué X — 12) Callar mandou ao sol o valente capitão, porque aquelles resplandores amortecidos, com que se ia sepultar no occaso, eram umas lingoas mudas com que o mesmo sol o murmurava de demasiadamente vingativo: eram umas vozes altissimas, com que desd’o ceu lhe lembrava a lei de Deus, e lhe prégava que não podia continuar a vingança, pois elle se ia metter no occidente: Sol non occidat super iracundiam vestram. E se Deus, como Auctor da mesma lei, ordenou que o sol parasse, e aquelle dia (o maior que vių o mundo) excedesse os termos da natureza por muitas horas, e fosse o maior, foi para que concordando a justa lei com a justa vingança, nem por uma parte se deixasse de executar o rigor do castigo, nem por outra se dispensasse no rigor do preceito. Castigue-se o Gabaonita, pois é justo castigal-o; mas esteja o sol parado até que se acabe o castigo, para que a ira, posto que justa, do vencedor, não passe os limites de um dia. Pois se este é, Senhor, o termo prescripto de vossa lei; se fazeis milagres e taes milagres para que ella se conserve inteira, e se Josué manda callar e emmudecer o sol, porque se não queixe, e dê vozes contra a continuação de sua ira; que quereis que diga o mesmo sol, não parado nem emmudecido? Que quereis que diga a lua e as estrellas, já cançadas de vêr nossas miserias? Que quereis que digam todos esses ceus creados, não para apregoar vossas justiças, senão para cantar vossas glorias: Cæli enarrant gloriam Dei? (Psal. XVIII — 1.)

Finalmente, benignissimo Jesus, verdadeiro Josué, e verdadeiro sol, seja o epilogo e conclusão de todas as nossas razões, o vosso mesmo nome: Propter nomen tuum. Se o sol estranha a Josué rigores de mais de um dia, e Josué manda callar o sol, por que lh’os não estranhe; como póde estranhar vossa divina justiça, que uzeis comnosco de misericordia depois da execução de tantos e tão rigorosos castigos continuados, não por um dia, ou muitos dias de doze horas, senão por tantos e tão compridos annos, que cedo serão doze? Se sois Jesus, que quer dizer Salvador, sêde Jesus, e sêde Salvador nosso. Se sois sol e sol de justiça, antes que se ponha o deste dia, deponde os rigores da vossa. Deixae já o signo rigoroso de Leão, e dae um passo ao signo de Virgem, signo propicio e benefico. Recebei influencias humanas, de quem recebestes a humanidade. Perdoae-nos, Senhor, pelos merecimentos da Virgem Santissima. Perdoae-nos, por seus rogos, ou perdoae-nos por seus imperios: que, se como creatura vos pede por nós o perdão, como Mãe vos póde mandar, e vos manda que nos perdoeis. Perdoae-nos, em fim, para que a vosso exemplo perdoemos: e perdoae-nos tambem a exemplo nosso, que todos desde esta hora perdoamos a todos por vosso amor: Dimitte nobis débita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostris. Amen.